QUEM É MARCO MAGALHÃES?

Nasci em S. Paulo em 1962, onde vivo até hoje. Tive uma infância com muita liberdade, minha família era de classe media, meus avós moravam no interior, onde passava férias todos os anos, Minha adolescência foi em S. Paulo, sem celular, sem computador e o melhor, sem repressão sexual. Estudei em escola pública de ótima qualidade e meu esporte favorito era futebol de rua. Um tempo em que andava com meus amigos à pé, mesmo a noite, Acho que o 1o. caso de Aids aconteceu no final dos anos 80. Vi acontecer os Titãs, Legião Urbana, os Paralamas, entre outros, sem contar das Diretas Já, né! Um grande movimento, nós sabíamos o que queríamos, e com todo o respeito, tudo era mais legal: a música, o futebol, a diversão era mais fácil e mais barata, apesar do regime militar, etc… mas acho que com isso tudo aprendi a me virar sozinho, a ser independente, o que contribuiu para minha carreira profissional, relacionamentos e tudo mais …Depois, faculdade, vida profissional, casamento, um filho maravilhoso, e resumindo: UMA VIDA FELIZ!

 

COMO A ARTE ENTROU NA SUA VIDA?

Quando tinha uns quinze anos de idade fui ao dentista para uma consulta de rotina e para minha surpresa, o consultório estava tomado por várias telas pequenas e que eram do meu próprio dentista, um amigo da família. Ele acabara de iniciar um curso de pintura e eu ficara encantado com os trabalhos. Sabendo do meu entusiasmo, ele me convidou para pintar com ele num domingo e foi uma experiência incrível, depois disso nunca mais parei de estudar, pintar e investigar arte.

 

QUAL FOI SUA FORMAÇÃO ARTÍSTICA?

Tive uma formação eclética e vim a me dedicar exclusivamente as artes plásticas, somente no início dos anos 2000, quando também descobri a fotografia. Estudei desenho e história da arte, e passei a ter a câmera fotográfica como ferramenta de trabalho. Em meus ensaios, meu olhar é constantemente atraído pelos lugares, objetos, pessoas, cores, ou seja, cenários que remetem a pintura. Até hoje minha obra transita pelos dois suportes e não é difícil identificar um diálogo entre eles, tanto que minha fonte de inspiração atualmente, vem dos artistas-fotógrafos contemporâneos, tais como; Nan Goldin, Luigi Ghirri, Francesca Woodman, Thomas Ruff, diCorcia, entre outros. A cor, a atmosfera dos lugares, o registro de coisas aparentemente banais, assim como o cotidiano de pessoas comuns, me instigam a produzir. Também estudei pintura com Paulo Pasta e participei do grupo de estudos de Carlos Fajardo por alguns anos. Tudo isso, unido a disciplina de produzir com frequência, tem contribuído para a evolução de minha obra, no sentido de consolidar um estilo próprio.

 

QUE ARTISTAS INFLUENCIAM A SUA OBRA?

Não é uma tarefa fácil elencar esses nomes. Digo isso porque tenho verdadeira paixão por alguns desses “monstros da pintura”, cada qual em sua época. Da Vinte por exemplo, um gênio, muito inteligente e uma qualidade incrível, como pintor, escultor e arquiteto: adoro! Dos impressionistas, fico arrepiado com Renoir, a ponto de ter que ir ao MASP, ver seus trabalhos. …E Matisse então, acho que ninguém conseguiu trabalhar as cores como ele! …Adoro a genialidade de Picasso, fazia o que queria, esbanjava talento, e sou apaixonado por alguns de seus trabalhos. Mas quem me toca mesmo e me inspira não só pela pintura, mas pela sua história de vida é o Munch. Vejo em sua obra toda a melancolia e sofrimento contido, sem dizer da facilidade em fazer; é espetacular! Depois tem os caras do “expressionismo Abstrato”, acredito que todos nós somos um pouco influenciados pelo movimento, mas meu crédito vai para o De Kooning, com sua pintura direta, gestual e de muita autonomia. Mais adiante, o Rauschenberg, me inspirou e me inspira até hoje, pela sua técnica e a coragem de inovar para a época. Dos brasileiros, Iberê Camargo e Amilcar de Castro são e sempre serão fortes referências para mim.

 

COMO VOCÊ DESCREVE SEU TRABALHO?

Vejo meu trabalho mais maduro e sem amarras. Posso dizer que não trabalho com projetos pré concebidos, ou seja, faço o que tenho vontade, quando quero e desprovido de tendências. Isso é diferente de ter referencias ou influencias. Acho que é um amadurecimento natural e as coisas só acontecem com entrega, com o exercício. Entre 1011 e 2013, produzi uma série de pinturas, que chamo de Figurativo Expressionista, onde aprendi a desenhar pictoricamente e que me deu grande satisfação e rendeu algumas exposições e salões de arte. Depois, voltei a trabalhar com as imagens, colagens e o gestual, numa nova conquista. Atualmente estou mergulhado numa série de trabalhos abstratos de grandes formatos. Então posso dizer, que as coisas funcionam assim: é muito difícil começar, porém, muito mais difícil parar! …O negócio é fazer!

 

É POSSÍVEL VIVER DE ARTE NO BRASIL?

Olha, como já disse, eu acredito em entrega, perseverança, coragem, portanto, pensando assim é possível se viver de qualquer coisa que se acredita em qualquer lugar do mundo. É lógico que estamos o tempo todo envolvidos com compromissos, contas pra pagar, filhos, etc… Mas não se pode abandonar o sonho! Eu mesmo, fiz carreira na área de comunicação, em ambiente corporativo, até que um dia consegui me libertar e me arrisquei também. Hoje ainda divido meu tempo com outra atividade, mas penso todos os dias em poder viver só da minha arte e já estou quase lá! Muitas vezes me deparo com artistas já reconhecidos e que são obrigados a ter outra atividade para pagar suas contas, etc . Faz parte do jogo, e o que não se pode é desistir! Além do que, hoje tudo está mais difundido, muitas galerias, muitos artistas, muitas oportunidades!

 

O MATERIAL DE ARTE NO BRASIL JÁ TEM BOA QUALIDADE?

Infelizmente não. É muito ruim comparado aos importados, ainda mais quando você começa a utilizar os de melhor qualidade, percebe a diferença.

 

MUITOS FALAM SOBRE A BAIXA DURABILIDADE DE TRABALHOS EM PAPEL E FOTOGRAFIA, O QUE VOCÊ PENSA SOBRE O ASSUNTO?

Seja na fotografia ou na pintura, acredito na força do trabalho e o quanto ele me toca. Grandes fotógrafos se utilizam até hoje de papel fotográfico comum e vendem suas obras para colecionadores e centros culturais, pela força de seu trabalho. Agora mesmo, presenciei uma série incrível de paisagens do pintor Paulo Pasta, toda produzida em papel. Lindo de morrer! …Sei lá quanto tempo vai durar! Não tenho essa preocupação, apesar de entender que existe sim um risco.

 

COMO O ARTISTA PODE SE PROJETAR NO CENÁRIO NACIONAL?

Ainda acho que os editais são um ótimo caminho, além da entrega ao trabalho, só assim sua obra pode maturar, acontecer de verdade. A troca com outros artistas, com grupos de estudos, os projetos de residencia, são muito enriquecedores também ao meu ver.

 

O QUE VOCÊ PENSA SOBRE OS SALÕES DE ARTE E OS PRÊMIOS PARA OS ARTISTAS, ALGUMA SUGESTÃO PARA MELHORÁ-LOS?

Gosto muito da iniciativa, eu mesmo sempre que posso participo, já fui selecionado algumas vezes e é uma forma de levar sua obra para outros centros, conhecer outras culturas e interagir com outros artistas. As experiências que tive foram muito boas, mas gostaria de mais incentivo das empresas e maior divulgação fora do meio artístico.

 

VOCÊ PODERIA FALAR SOBRE O PROJETO SOCIAL, QUE VOCÊ PARTICIPOU, POR QUE ACABOU?

Posso dizer que foi incrível, uma experiência maravilhosa, principalmente porque trabalhamos com crianças de diferentes classes sociais e voluntários provenientes da arte, como artistas, curadores, etc. O projeto acabou pelo mesmo problema de sempre, falta de apoio e patrocínio. Guardamos o histórico, os depoimentos e tenho muita esperança de poder levar a ideia para outros centros.


QUAIS SÃO SEUS PLANOS NO FUTURO? ALGO NO RIO DE JANEIRO?

Estou pensando em passar uma temporada, fora do Brasil, talvez 2017, e estou me programando para isso. E quanto ao Rio de Janeiro, além de ter uma afinidade incrível com a cidade, adoraria ser representado por alguma galeria local. Minha última experiência, foi participar da 2a. edição da ArteRio.